domingo, 28 de outubro de 2012

(A ORIENTAÇÃO INTERMÉDIA E OS RELACIONAMENTOS)




Sessão 3102
Participantes: Ann (Vivette) e Mary (Michael)
Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2012
Tradução: Amadeu Duarte 

ANN: Eu tenho uma coisa rápida sobre a qual queria perguntar. Mas creio que o que eu quero principalmente falar é sobre relacionamentos.
ELIAS: Muito bem.

ANN: Mas antes de entrarmos nisso, estou a interrogar-me se este tipo que ando a namorar não será intermédio, e é engraçado como eu recordo que o tipo que namorei antes – que era comum – se eu dissesse alguma coisa, ele respondia-me: “Eu acabei de te dizer isso. Eu acabei de te dizer isso.” E, como se não tivesse escutado o que disse ou algo assim, não o registava. E eu noto que isso se passa também com este tipo. Eu digo alguma coisa e depois ele repete isso mais tarde como se não me tivesse ouvido. E eu interrogo-me se isso não será uma característica intermédia, por pensar que quando somos intermédios é como se nos voltássemos para dentro e nos desligássemos um pouco. Dever-se-á isso... será comum uma coisa ter que ver com a outra?

ELIAS: Por vezes, é. Por não ser necessariamente conforme expressaste, que desligas. Mas por vezes isso pode ser uma expressão de um indivíduo intermédio por não prestar completamente atenção ao que sucede fora dele. Ou poderá não estar por completo a prestar atenção ao que outro indivíduo esteja a expressar. Poderá estar a prestar uma atenção parcial, mas não total, porque nisso, uma característica que é muito comum associada ao indivíduo com uma orientação intermédia é o facto de se encontrar com frequência muito ocupado com o que quer que esteja directamente a afectá-lo no momento.

Não é que os indivíduos intermédios sejam mais dotados na atenção genuína para com eles próprios, por não serem, mas o facto da sua atenção se ocupar em geral de uma forma mais consistente com o que estiver directamente a afectá-los num momento particular. Por isso, se um outro indivíduo vos falar, mas também estiver a decorrer um outro estímulo, e vos distrairdes por estardes a prestar atenção ao que quer que esteja directamente a afectar-vos nesse momento, e isso poder englobar uma acção ou ocorrência qualquer que esteja meramente ligada aos dados dos sentidos. Talvez noteis que estais demasiado quentes, ou que estais ligeiramente com frio, ou que estais a tocar num objecto, ou que cheireis algo. Pode envolver um estímulo qualquer que não seja tremendamente significativo mas suficiente para vos afectar directamente, e de imediato deslocardes a atenção para isso, e consequentemente, enquanto o outro possa estar a conversar ou a expressar uma informação qualquer, o indivíduo intermédio poderá prestar uma atenção parcial, mas não por completo, e por isso não recordará necessariamente o que estiver a ser dito, por o que quer que estiver a afectá-lo directamente nesse instante poder sobrepor-se ao que quer que estiver a ocorrer mais.


ANN: Soa como se no caso dos intermédios isso envolva um enfoque mais estreito. Um comum será capaz de se focar mais na conversa. Algo tipo frio ou quente, e de se focar em mais coisas ao mesmo tempo. Será isso exacto?

ELIAS: Não inteiramente. Antes de mais diria que cada orientação é diferente. Por isso, não é que uma seja mais estreita ou ampla do que a outra, mas que vêem a sua realidade e processam a sua realidade por intermédio de diferentes lentes. Um indivíduo comum acha-se muito mais focado no que acontece fora dele. Por isso está muito mais focado em relação às imagens, e presta atenção a quaisquer imagens representativas que decorram ao seu redor, e pelo facto de por vezes poder não ter tanta consciência do que esteja directamente a afectá-lo, por concentrar a sua atenção muito mais nas imagens, da linguagem figurativa, que tem lugar fora dele. Portanto, não é necessariamente que um indivíduo comum seja melhor a mover a sua atenção em diversas direcções em simultâneo, mas dirige a sua atenção de um modo diferente do de um intermédio. Eu diria que se entreteres esse tipo de ideia, será mais provável que um indivíduo com uma orientação soft divida a sua atenção e preste atenção a mais do que uma direcção ao mesmo tempo.

ANN: Dentro e fora.

ELIAS: Não somente dentro e fora, mas mesmo que o indivíduo soft não esteja a prestar atenção ao interior, será mais adepto a prestar atenção a mais do que uma direcção que lhe diga respeito, mas digamos a título de exemplo, que um indivíduo soft produziria muito mais facilmente a capacidade de escutar diversas conversas em simultâneo...

ANN: Ah, isso é interessante.

ELIAS: ...e de não ficar necessariamente confuso ou de se distrair. Ele é capaz de dividir a sua atenção para prestar atenção em várias direcções ao mesmo tempo. Isso não quer dizer que possam prestar atenção a si próprios, mas que em relação à atenção, os indivíduos soft incorporarão essa capacidade em relação à orientação que têm a fim de dividirem a sua atenção de uma forma efectiva e eficaz, ao passo que um indivíduo intermédio ou um indivíduo comum terão menos probabilidades de empregar uma acção dessas e a produzirá com muito menos frequência, e mesmo que o façam, não dividirão a sua atenção em igual medida. Consequentemente, não terão tanta clareza com essa divisão da atenção. Um aspecto da sua atenção deverá ser predominante e ultrapassar os outros aspectos da sua atenção que são secundários. O que constitui o exemplo de que um indivíduo intermédio prestará mais atenção àquilo que o afectar directamente, e qualquer outra direcção para que dirija a sua atenção deverá ser secundária. Por isso, se uma conversa não o estiver a afectar directamente nesse instante, deverá constituir uma atenção secundária a que não prestará tanta atenção, pelo que provável será que não obtenha a mesma clareza ou não recorde todos os detalhes dessa conversa.

Um indivíduo comum será semelhante nessa qualidade, só que não necessariamente em relação ao que estiver directamente a afectá-lo. Mais em relação ao que estiver a decorrer fora do contexto de si próprio, que é para onde a sua atenção primária deverá ser dirigida. Por isso, nessa hipótese, se o indivíduo estiver a ter uma conversa e uma acção estiver a decorrer na sala, o provável é que divida a atenção da conversa para o que estiver a ocorrer na sala. Não por estar directamente a afectá-lo mas por ser uma imagem qualquer que esteja a ser expressada fora dele. E isso tornar-se-á mais na sua atenção primária.

Eu diria que no caso do indivíduo intermédio ou do indivíduo comum, é menos provável ou menos natural que cada uma dessas orientações envolvam árias acções ao mesmo tempo. Conquanto isso constituirá uma função natural para um indivíduo soft, por ser fácil para eles dividir a sua atenção, por poderem envolver mais do que uma acção a um só tempo.



ANN: Então esse deve ser um outro exemplo de como os comuns e os intermédios se assemelham um tanto, não?

ELIAS: De certo modo. Diria que de alguns modos, existem sem dúvida semelhanças entre os indivíduos dotados de uma orientação comum e os que têm uma orientação intermédia, e de certa forma os comuns e os intermédios interagem razoavelmente bem, mas também diria que os intermédios e os soft interagem com um maior à-vontade, por o soft comportar a capacidade de dividir a atenção. Devido a que para um soft não se revelar enfadonho interagir com um indivíduo intermédio. Há alguns factores em relação a um indivíduo comum que o levam a tornar-se impaciente com um indivíduo intermédio, ao passo que o indivíduo soft dispõe de uma maior capacidade de interagir com um intermédio sem se tornar impaciente. Se misturardes as orientações, essas duas ligam-se muito bem. Diria que para um indivíduo soft o intermédio é o mais fácil de se ligar e de interagir. Para outros indivíduos soft pode revelar-se difícil e aborrecido entre si, os indivíduos da orientação comum em relação aos indivíduos soft apresentam uma dificuldade um tanto mais significativa, por o modo como processam a informação diferir bastante. Mas os indivíduos intermédios dispõem da tendência para se misturarem e de se associarem muito bem com os soft.

ANN: Eu tenho muitos amigos soft.

ELIAS: Ah ah ah.

Os intermédios também funcionam bem com os outros intermédios, caso tenham consciência da orientação que têm. Porque, se tiverem noção da orientação que têm dão um desconto. Se não estiverem cientes da orientação que têm podem causar quase tanta irritação entre si como em relação aos indivíduos soft.

ANN: Bom, eu creio ter experimentado isso um pouco. Só me soa interessante, pois parece que algumas das coisas em que eu reparava ou notava, tipo: "Eu acabei de dizer isso," ou "não estavas a prestar atenção," é o que me tem sido dito. (A Ann ri juntamente com o Elias) É por isso que eu estava pensar que em parte pudesse ter algo que ver com a orientação dele.

ELIAS: Em parte, sem dúvida.

ANN: Mas de qualquer modo, já chega disso.

ANN: Eu quero falar sobre relacionamento, e do que me disseste anteriormente, que é tudo o mesmo relacionamento. O relacionamento que tenho com um amigo, um amante, um irmão, um carro, uma casa, sabes? É sobre isso que quero falar, mas a Fontine também tem uma pergunta. Creio que poderemos começar aqui por esta questão: "O relacionamento implicará a existência de uma dupla?" Tipo, se o relacionamento precisará assentar na separação entre pares, ou na aparente separação das partes, para se ter um relacionamento. Será isso verdade?

ELIAS: Define as partes separadas.

ANN: Muito bem. Para haver um relacionamento tem que existir um mais outro. Podia ser comigo própria. Podia ter um relacionamento comigo própria, mas teria que ser, mas haveria de... Muito bem. Dois pontos de vista diferentes, talvez. Parece ter que existir dois de qualquer coisa para existir um relacionamento. É como se um candeeiro, que não consegue ter um relacionamento consigo próprio, mas já com uma lâmpada pode ter um relacionamento. (Ambos riem) Não estou certa. Apenas parece ter que haver dois. Muito bem, a ideia que tenho é que um relacionamento deva existir entre alguma parte de mim com qualquer coisa que exista fora de mim, ou uma outra parte de mim; pois, como se poderá ter um relacionamento se não existirem dois pontos de vista ou duas coisas a confrontar-se? Como poderão estar relacionadas? Assim, alguma coisa deverá ter que se relacionar com qualquer outra coisa.

ELIAS: Exacto.

ANN: Assim, isso significa que têm que existir pelo menos dois.

ELIAS: Sim, tens razão.

ANN: Obrigado. (Ambos riem) Levou-me um certo tempo a chegar lá. De modo que tem que existir algo que se relacione com mais alguma coisa para existir um relacionamento.

ELIAS: Sim.

ANN: Muito bem. Então agora...

ELIAS: Na vossa realidade.

ANN: Dualidade.

ELIAS: Na vossa REALIDADE, essa é uma definição precisa da coisa, sem dúvida.

ANN: Mas na tua realidade não?

ELIAS: Não.

ANN: Ah, está bem.

ELIAS: Mas, no contexto do objectivo da conversa e em relação à vossa realidade, sim, isso está correcto.

ANN: Então, o facto de tudo ser o mesmo relacionamento faz sentido para mim da perspectiva de eu ter o mesmo relacionamento com tudo por ser eu, por eu ser a coisa comum. Mas eu estava a tentar pensar, para reunir as ideias que tenho relativamente a isso, digamos que tenho um relacionamento, só para facilitar a coisa de momento, digamos que existem três pessoas diferentes e eu posso obter três relacionamentos bastante diferentes no aspecto. Tipo, um relacionamento com uma pessoa pode ser muito fácil enquanto outro pode representar um desafio ou algo do género, sabes. E eu estou a pensar, se é tudo o mesmo relacionamento, então óptimo, mas todos eles têm um aspecto bastante distinto. Mas é o mesmo relacionamento, por a pessoa A poder exibir certas características a que de certa forma eu reaja, e a pessoa B poder exibir características diferentes a que eu de certa forma reajo. Mas se a pessoa A tivesse as mesmas características que a B, talvez eu tivesse o mesmo tipo de relacionamento com a pessoa A que tinha com a B, só que eu reajo às características que me são exibidas nesse momento. Fará isso sentido?

ELIAS: Sim, estou a compreender o que estás a dizer, mas aquilo que disseste anteriormente é mais exacto, que a razão por que todos os relacionamentos são o mesmo basicamente se deve ao facto de serdes o factor comum em todas. E ao serdes o factor comum a todas, torna-se numa questão do que fazeis em todas elas que é importante. Além disso, aquilo que fazeis em cada uma determina o modo como as definis. O relacionamento que expressas com o teu merceeiro é determinado pelas acções que empregas com esse indivíduo. O relacionamento que tens com os teus catraios parecerá ser diferente do relacionamento que terás com um amante, ou com um companheiro, por ser determinado pelo que fazes com esses diferentes indivíduos. O papel que desempenhas em cada um desses relacionamentos difere e interpretas diferentes acções em cada um deles. Não é que o relacionamento em si mesmo seja diferente, por que não é. É o factor de mudares o comportamento em associação com o papel que consignas a ti própria em cada relacionamento.

Mas, quando te digo que não tem importância, e que os relacionamentos são basicamente os mesmos, de facto são, por não se dever meramente ao factor de tu seres o denominador comum em todos os relacionamentos, mas à questão dos relacionamentos serem desenvolvidos e expressados na forma como interages. Quer isso passe pelo facto de dares atenção a ti próprio ou não, vai determinar o êxito desse relacionamento. Mesmo com respeito aos objectos ou à mecânica (das coisas), não importa que o relacionamento que tenhas seja com a natureza, ou que o relacionamento tenhas seja com uma criatura, com um veículo, com um indivíduo, e as várias expressões do relacionamento com os indivíduos, é...

ANN: Posso interromper-te apenas por um instante?

ELIAS: Podes.

ANN: Muito bem, então quando dizes que num relacionamento tem importância o facto de estarmos a prestar atenção a nós próprios, e o que quer que esses relacionamentos afectem, como o relacionamento que nós temos, isso leva-me a pensar que quando estou a prestar atenção a mim própria e ao que estou a fazer, que isso se assemelha à criação de um relacionamento. Isso será como se estivesse a tentar apertar o atacador do sapato às pressas e de uma forma desajeitada, que não vai funcionar tão bem por estar a expressar essa energia apressada ou de aborrecimento ou seja o que for, ao contrário de eu simplesmente parar e com todo o cuidado prestar atenção ao que estou a fazer, que assim isso funcionará melhor. Muito bem, creio que compreendo só não consigo explicar. Estou a imaginar que não seja somente o outro, que não seja o objecto, que estamos a criar o relacionamento por aquilo que estamos a fazer. Eu sei que já referiste isso um bilião de vezes, só estou a imaginar isso num nível diferente. Muito bem, continua; estava somente a tentar assimilar.

ELIAS: Isso é aceitável. Mas tens razão, é uma questão de, se quiseres um relacionamento bem-sucedido, é uma questão de estabeleceres a fundação que é prestar atenção a ti. Que quererá dizer prestares atenção a ti? O que isso quer dizer é prestares atenção ao que fazes, ao modo como respondes, a qualquer situação. Ao que sentes ou desencadeias em relação ao que possa ocorrer e ao que o outro expresse ou escolha. O modo como te sentes afectada, caso sejas afectada, e prestando atenção ao que te envolver directamente e ao que não te envolver.

ANN: Está bem, deixa que te interrompa, aqui.

ELIAS: Muito bem.

ANN: É como se eu me sentisse um pouco ansiosa por estar a conseguir compreender algo novo, mas sinto estar num... Com se tivesse as mãos numa rocha escorregadia e e não quisesse cair. Mas, conforme estava a pensar, conforme estou a entender, como o Bashar está sempre a dizer que “as circunstâncias não contam, mas sim o ânimo.” E às vezes ouvimos tantas vezes isso que não passa de palavras, mas estou a começar a entender de verdade, como o que eu faço, como tudo ao meu redor pode ser completamente diferente dependendo de mim. Estou a começar a compreender como sou, sabes, o criador, seja o que for. Que eu tenho esse poder, essa questão do poder do meu lado, que é capaz de afectar o modo como as coisas acontecem. E depois começo a sentir-me verdadeiramente bem e poderosa, e a seguir noto a ansiedade a chegar. E depois digo: “Meu Deus, Elias, hoje sinto-me tão desastrada.” Mas creio estar a começar a entender e depois começo a pensar, “Ena, se não consigo pensar na associação, ou se não consigo descobrir a associação que me causou a ansiedade, ou não consigo suplantá-la, creio que sinto que ela se torne de tal modo desconforme que preciso descobrir isso tudo.” Talvez tomar consciência de tudo o que acontece. É como se parecesse muita informação que precisemos tentar descortinar. Mas depois creio que gostaria de saber se virei a ser capaz disso. Mas não sei.

ELIAS: Muito bem, deixa que te diga que num sentido é muita informação, mas também diria que talvez estejas a complicar e a deixar-te sobrecarregar com isso. Porque embora na realidade envolva um monte de informação, isso não quer dizer obrigatoriamente que seja necessário que a processes toda. Nessa medida, se estiveres a começar a sentir ansiedade, para usar isso a título de exemplo, nem sempre é necessário que analises a situação e definas de imediato a associação que envolve.

Deixa que te diga que eventualmente reconhecerás isso. Se continuares a mover-te nessa direcção eventualmente passarás a apresentar a ti própria informação e a reconhecer: “Esta é a associação; consigo defini-la.” E conseguirás defini-la numa altura em que nem sequer estejas a experimentá-la por nem estares a ser movida por ela.

Mas essa não é a expressão mais imediata a prestar atenção. É definitivamente benéfico identificar eventualmente as associações, mas de imediato numa situação em que estejas a experimentar uma ansiedade não é inteiramente importante nem necessário que identifiques a associação que envolva. Parece ser importante que faças uma pausa e reconheças que estás a ser movida, e nessa medida é importante expressar duas acções. Uma, reconhecer que um aspecto qualquer dos teus sentidos criou essa acção.

Portanto, para te capacitares no momento em que estás a ser invadida pela ansiedade, a primeira acção consiste em fazeres uma pausa e reconheceres simplesmente: “Estou a ser movida por uma informação qualquer proveniente dos meus sentidos.”

ANN: Não é um pensamento?

ELIAS: Não. Pode traduzir-se por um pensamento.

ANN: Mas tem início no sentido.


ELIAS: Começa com um dos vossos sentidos, ou mais do que um dos vossos sentidos, mas sempre tem início na informação que os sentidos introduzem. Certa admissão de informação com que os teus sentidos estabelecem contacto; uma visão, um som, um odor, um toque, não importa. E pode tratar-se de uma combinação deles, mas geralmente nem sequer é necessário tratar-se de uma entrada óbvia. Podes nem mesmo notar, o que geralmente traduz a situação, e a razão por que, quando ocorre, para a maioria dos indivíduos parece fruto do acaso, e não estar ligado a coisa nenhuma que possais identificar. A razão para isso é o facto de estar a ser desencadeado por alguma informação proveniente dos sentidos.

Por reconheceres: “Isto é um desencadear, e está ligado a um ou mais sentidos dos meus.” E não é necessário que identifiques sequer de imediato o que provoca isso. Por vezes podes identificar e conhecer e produzir a capacidade de definires o que provoca isso, ou pelo menos o que parte da causa disso seja, mas outras vezes podes não o fazer, mas isso não é essencialmente importante.

O que tem significado no momento é antes de mais admitir isso, e a seguir expressar determinadas interrogações a ti própria. E o propósito de colocares essas interrogações, ou de apresentares essas interrogações a ti própria, é o de que ao procederes desse modo estás a comunicar com a consciência do teu corpo. Mesmo que não estejas objectivamente ciente de ser isso que estás a fazer no momento, isso será o que ocorrerá. Quando apresentas determinadas interrogações a ti própria estás a apresentá-las no sentido de estabeleceres aquilo a que corresponder o padrão da associação.

Todas elas têm padrões. Parece que não tenham parões, por não prestardes atenção a elas, mas têm.

Nessa medida, eu afirmei previamente que o modo mais eficaz de dar início a isso é começar a empregar tempo, o que instrui a consciência do corpo: “Agora estamos a prestar atenção a padrões. Qual será o padrão que é gerado em relação a esta associação e a este desencadear?”

Portanto realizas várias acções em simultâneo. Uma, consegues desviar a tua atenção da sensação, o que dissipa a sensação, por não lhe estares a ceder energia que o vá alimentar. Não elimina por completo a sensação, mas dissipa-a. Também te desvia para uma distracção em que te tornas ocupada com uma avaliação, mesmo que não apresentes a ti própria uma resposta em termos absolutos ou definitivos. Não importa, por ser o processo que te capacita. Afasta-te da sensação numa direcção diferente, e instrui a consciência do corpo no sentido de se voltar numa direcção diferente. Além disso, quando experimentas ansiedade, a consciência do teu corpo reage de imediato. Reage à intenção, altera-te a respiração, altera-te o batimento cardíaco, altera-te o sistema nervoso e o modo como ele opera. Todas essas acções de que tu não tens consciência têm lugar na consciência do teu corpo. Não prestas atenção a nenhuma dessas acções, mas ao interpretares certas acções como prestar atenção ou focar a tua atenção no teu sentido visual, no teu sentido auditivo, no teu sentido do toque, no teu sentido do olfato: “Que está a acontecer no meu ambiente neste instante? Que é que vejo, que é que sinto, que é que ouço, que é que cheiro? Qual temperatura apresentarei?” E ao apresentares as interrogações a ti própria: “Em que período do dia estarei, em que dia da semana, em que semana do mês? Em que mês do ano? Em que estação me encontrarei efectivamente?”

Ao apresentares essas interrogações a ti própria estás não só a distrair a atenção da sensação como elas estarão a instruir diferentemente a consciência do teu corpo. Assim que começares a colocar essas interrogações e prestares atenção ao que perfaz o teu ambiente do momento, aquilo que fazes é reajustar a consciência do teu corpo para voltar a funcionar naturalmente de novo. O teu batimento cardíaco muda, o teu sistema nervoso sofre alterações, a tua respiração altera-se, e tudo isso contribui para a dissipação da sensação.

Bom; sim, eventualmente e em última análise é benéfico e significativo expressar essa capacidade de definires o que provoca isso, o que isso significa para ti, o que a sensação traduz, e o que a sensação representa para ti, e por isso, em última análise identificar a associação em que se apoia. Mas eu diria existirem muitíssimas situações em que as pessoas, inclusive tu, podem sentir e podem simplesmente expressar uma generalização em relação a essa sensação: “Sinto-me ansiosa, sinto-me inquieta, sinto-me irritada, sinto-me triste.” Mas ao generalizares estarás a deixar de proporcionar a ti própria uma informação pacífica que te ajude a definir o que estás a fazer, pelo que a forma como te auxiliarás ti própria a definir o que estás a sentir é interrogando-te: “Estou a sentir-me ansiosa, o que será que isso significa para mim? Que compreenderá esta sensação de ansiedade, que será que representa para mim?”Isso ajuda-te a tornar-te mais clara em relação ao que estiveres a sentir e portanto ao que estiveres a fazer.

Por vezes podes-te sentir ansiosa por estares a entabular uma conversa com o teu companheiro ou com uma amiga, e talvez eles te façam um comentário qualquer e tu reajas e automaticamente te sintas ansiosa. O que terá ocorrido nesse momento? O que será que essa ansiedade significa para ti nesse instante? Nesse momento em particular pode significar o facto de estares a sentir que o outro esteja a desvalorizar-te, pelo que te sentirás desvalorizada. Numa outra altura essa expressão ou identificação de ansiedade pode assumir contornos completamente diferentes. Pode não representar uma desvalorização mas estar relacionada com a antecipação de uma consequência. Numa outra altura pode estar ligada à antecipação de uma ameaça ou apresentar-se junto com uma ameaça. Cada sensação possui muitos significados diferentes, e cada situação define o significado dessa sensação no momento. Se não compreenderes aquilo que estiveres a sentir tornar-se-á muito mais difícil compreender o que estiveres a fazer, e muito mais difícil será apresentares a ti própria escolhas. Se não conseguires apresentar escolhas a ti própria dificílimo será capacitares-te.


ANN: Parece que, se eu tiver um sentimento de ansiedade e começar a pensar nele, isso possa levar-me a ver como provavelmente desencadeará... Mas parece que atrai todos os outros sentimentos com que possa começar a pensar em termos de não ser valorizada, mas aí posso começar a pensar naquele sentimento a que associo a segurança ou algo assim, sabes.

ELIAS: Pois.

ANN: De súbito eles misturam-se todos e parece-se mesmo como aquela coisinha rápida, mas creio que é uma questão de prestar atenção; que a seguir tudo se misturará.

ELIAS: É. Mas isso faz parte da falta de definição do que estás a expressar; isso faz parte da generalização. Mas quando te encontras nesse momento, e estás a montar o quebra-cabeças, o que não leva muito tempo, podes empreender isso numa questão de segundos, ao passo que a mim pode levar minutos a explicar. Se nesse instante, quando começares a sentir essa ansiedade, te questionares: “Que significará esta ansiedade para mim, neste momento, nesta situação?” É uma avaliação muito rápida do que efectivamente ocorre no momento. E nessa medida, mesmo que apresentes a ti própria inicialmente, digamos, hipoteticamente, cinco definições diferentes para essa ansiedade, muito rapidamente serás capaz de eliminar quatro delas. “Será efectivamente isto? Estarei eu realmente a sentir esta ansiedade, cujo sentido é o de me sentir insegura no momento?” Talvez não. “Será por estar a antecipar uma consequência?” Não obrigatoriamente. “Será que me estou a sentir desvalorizada neste instante?” Talvez. “Será que estou a definir isso como uma ameaça?” Não, não necessariamente.

ANN: Muito bem, então tomemos este exacto momento, que não é mau. Exactamente agora sinto um pouco de ansiedade, não grave, mas ao falar contigo penso: “Será que vou ser capaz de entender isso? Estarei à altura de recordar tudo isso? Irei ser capaz de prestar atenção? Irei ter a capacidade de fazer isso?” Por isso...

ELIAS: Bom; muito bem. Agora define-me lá isso. Tudo quanto disseste pode ser definido numa só expressão. Que expressão será?

ANN: Inadequação. Quero dizer, sinto-me inadequada.

ELIAS: O que consiste numa desvalorização.

ANN: É claro, sempre parece reduzir-se a isso.

ELIAS: Isso, é uma questão que neste instante podes praticar.

ANN: Claro.
ELIAS: Bom; qual será a fórmula, qual será o método? Tu estás a ter essa sensação. Identificaste isso como um sentimento de inadequação, pelo que te estás a desvalorizar. Agora; que foi que eu te disse para fazeres?

ANN: O que é que significa para mim?

ELIAS: Tu já expressaste isso, definiste o sentido que tem para ti.

ANN: Então qual será o sentimento?

ELIAS: Que foi que eu te disse para fazeres?

ANN: Para voltar aos meus sentidos? Que é que vejo, ouço, sinto - isso tudo?

ELIAS: Sim.

ANN: Portanto, que é que vejo, não é?

ELIAS: Lembra-te de que isso representa um quebra-cabeças. Pode tratar-se de informação proveniente de qualquer dos teus sentidos, mas um deles está a introduzir e a provocar um acto. Conforme referiste, desvalorização. Isso, uma vez mais, é familiar. Por isso, é uma questão de prestares atenção ao facto de um dos teus sentidos te estar a introduzir informação que te está a desencadear o sentimento, que está a desencadear essa associação com o facto de te desvalorizares, da inadequação. Agora; uma outra forma de identificares parte dessa provocação é o quê? Que é que fazes? Para além dos teus sentidos, que é que fazes?

ANN: Que altura do dia.

ELIAS: Exacto. Que dia será? Que altura do dia envolverá? Será a manhã, será a tarde, será a noite? Tu estás a estabelecer padrões. Lembra-te do padrão e dos sentidos. De que dia se tratará, de que semana se tratará? De que estação do ano se tratará? Por isso te facultar uma peça do quebra-cabeças do padrão que é mais provável que venha a ser desencadeado numas alturas do que noutras.

ANN: Está bem.

ELIAS: E por isso em certas alturas é mais provável que te encontres em certos ambientes do que noutros. Estarás sozinha? Encontrar-te-ás num ambiente particularmente familiar? Que será que esse ambiente significa para ti? Que componentes apresentará esse meio? Isto são tudo factores que estabelecem o padrão. Ajuda-te a ver o que te desencadeia isso.

Um aspecto do que te está a provocar é o facto de estares a ter uma conversa comigo, e em grande medida, com poucas excepções, tu me veres ou perceberes como uma autoridade. Raramente te permites criar uma associação nova e uma nova percepção em relação a mim em que nos vejas como amigos, o que difere da definição da autoridade que crias. E nessas alturas é muito menos provável que expresses ansiedade comigo.

Além disso, o assunto, isso é tudo parte do ambiente e do que estás a fazer. O assunto. Se estiveres a debater a viagem no tempo, ou outros focos, ou um outro assunto qualquer que julgues ser mais cósmico e mais divertido, será também muito menos provável que geres ansiedade, mesmo que nessa altura me percebas mais como uma autoridade. Estarás mais disposta a aceitar essa autoridade em relação a esses assuntos. Por serem mais fluídos, por permanecerem mais em aberto, por assim dizer. Mas em relação a questões como os relacionamentos, isso torna-se mais num absoluto, por se achar mais consolidado e ser menos fluído. Por comportar mais respostas do tipo certo e errado. Por existirem, na tua percepção, mais acções certas e erradas pelo que isso instaura a diferença. Mas ao me veres mais como uma autoridade em relação às respostas do certo e errado crias uma abertura para esse sentimento de inadequação.

Mas que será que gera isso? Isso não está a ser produzido por mim. Não está a ser produzido pela experiência que tens comigo, mas por toda a associação. Por isso, os teus sentidos estão a desencadear (esse sentimento) em relação ao que subjectivamente estás a abordar. Mas numa outra experiência produziste uma associação de que a autoridade nem sempre é digna de confiança por poder desvalorizar-te. Por poder produzir essa sensação dentro de ti de seres inadequada, pelo que não se revela sempre como digna de confiança e te sentires cética e desconfortável. Isso não é uma coisa desencadeada por este momento, não é uma provocação que esteja associada com as experiências que tens comigo.

ANN: Certo.

ELIAS: Por isso não ter ocorrido entre nós. Terá ocorrido numa outra experiência qualquer que tenhas produzido em associação com esse rótulo do mau; da experiência má. E nessa medida, qualquer outra experiência que se assemelhe a ela está sujeita a provocar isso. Mas o seu acionamento não está em mim, não está no acto de me abordares. No teu ambiente existe um sentido qualquer de introdução por parte dos sentidos que está a gerar esse desencadear.

ANN: Então, se me encontrasse num meio completamente diferente, e numa altura diferente do dia, neste exacto momento ao falar contigo, e o ambiente em que me encontrasse não tivesse nada, nenhum sentido de accionamento, eu não sentiria a ansiedade?

ELIAS: Exacto.

ANN: Bom, Elias, tu dás-me... (A rir) Isso dá bem que pensar. Falas de um quebra-cabeças. Está bem, nem sequer tenho a certeza de poder descobrir as peças do quebra-cabeças, para não falar em reuni-las todas.

ELIAS: Ah ah ah.

ANN: Mas vou dar uma chance a isso.

ELIAS: Ah não, minha amiga. Isso és tu a dar seguimento à desconsideração e à associação, mas eu diria que não, que discordo veemente de ti. Tu és uma pessoa inteligente, sensível, e um ser interligado. E decerto podes descobrir o quebra-cabeças e consegues reuni-lo.

ANN: Bom, quando o referes nesses termos, eu acredito.

ELIAS: Ah ah ah.

ANN: Ah ah ah.

ELIAS: Ah ah ah.

ANN: Bom, tudo bem, o nosso tempo terminou Elias, e eu gostei muito de conversar contigo.

ELIAS: Tu és muito bem-vinda, minha querida amiga. Muito que pensar.

ANN: Claro. É quase um festim, um verdadeiro banquete. Estou diante de um banquete. Que irei comer em primeiro lugar? (Ambos riem.)

ELIAS: E eu gosto de te manter ocupada.

ANN: E hás-de manter, pá. Eu vou prestar atenção a sério, prestar atenção, prestar atenção.

ELIAS: Ah ah ah.

ANN: Toda a energia do tipo prestar atenção que me queiras endereçar, desde que não envolva arrancar o meu dedo do pé, será bem-vinda.

ELIAS: Muito bem, ah ah ah. Dirijo-te um enorme encorajamento, minha amiga, e um enorme apoio também, ah ah ah.

ANN: Obrigado, Elias.

ELIAS: Um enorme carinho para ti minha querida amiga e até ao nosso próximo encontro, au-revoir.

ANN: au-revoir.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.

O MATERIAL ELIAS