domingo, 19 de fevereiro de 2012

“DISFUNÇÃO/VIOLÊNCIA” “NECESSIDADE DE SERMOS PRESENCIADOS”


“disfunção/violência”
“NECESsIDADE DE sermos TESTEMUNHADOS”
Sessão de 2/4/12 (Excerto)
Tradução: Amadeu Duarte

...

TYLER: A Ginger é curiosa – mas eu também sou – mais ou menos... “Que tem andado a passar-se ultimamente?” é a pergunta geral que coloca, mas... sabes, para dar mais detalhes acerca disso... ela tem trabalhado num hospital faz sete, vai para oito anos, e disse - foi no ano passado ou há dois anos - que tem aparecido muito mais o que ela considera ser “pacientes malucos”... muito mais gente a morrer... e o primeiro instinto que tive foi no sentido de dizer que isso se fica a dever a esta mudança, mas que será que está exactamente a ocorrer neste momento, no âmbito desta mudança?

ELIAS: Está associado à mudança.

TYLER: (Risadas) Pois está.

ELIAS: Eu diria que na realidade já falei disso anteriormente...

TYLER: Ah, está bem.

ELIAS: Apesar de já ter sido há bastante tempo, conforme os termos que empregais. Nessa medida, mais lá pelos começos destas reuniões, eu referi que à medida que esta mudança progredia e tinha continuidade, haveria de parecer a muita gente, sob a designação daquilo que designais por “loucura” ou “alienação mental” e que isso se tornaria mais a norma (ri), e o que realmente definis como norma sofreria uma alteração.

TYLER: Certamente.

ELIAS: Nessa medida, há diversos factores envolvidos. Sim, está a surgir um aumento efectivo de casos de indivíduos que estão a optar por experimentar esta realidade de uma forma diferente; não da forma a que vós vos acostumastes. Mas isso está a aumentar. Eu diria que há cem dos vossos anos nem uma fracção existia de pessoas que expressavam essas diferenças, com há agora.

TYLER: Caramba.

ELIAS: Agora; em parte, isso está relacionado com a mudança, pela forma em que as pessoas escolhem experimentar esta realidade a partir de um ângulo ligeiramente diferente. Mas, conforme declarei, isso envolve várias facetas. Também há indivíduos que se estão a expressar de um modo diferente; uma das quais vós identificaríeis mais, ou expressaríeis como “anormais”, ou “fora do vulgar”, e mesmo como uma expressão de uma disfunção, segundo os termos que aplicais. Eles não são completamente disfuncionais do modo que pensais. As vossas ciências médicas da psicologia são céleres a rotulá-las...

TYLER: Certamente.

ELIAS: ...como disfuncionais, só que de uma forma diferente daquilo que elas são na realidade.

Isso... para além dos indivíduos que optam por experimentar esta realidade a partir de um ângulo ligeiramente diferente – e por isso esses indivíduos estarão na realidade a expressar diferentes interacções químicas; expressões fisiológicas diferentes daquelas que são expressadas pelos indivíduos que percebeis como normais. Mas existem, igualmente muitas outras expressões que estão a ocorrer que estão relacionadas com esta mudança ligada ao trauma e ao desenvolvimento de disfunção e de dificuldades com as pessoas, por estarem a tomar parte nesta mudança, mas podem não necessariamente compreender aquilo em que estão a tomar parte, e assim isso dá origem a dificuldades, e é capaz de causar trauma às pessoas, por estarem a expressar o que VÓS encarais como uma disfunção.

Também se trata de uma questão das pessoas não compreenderem o processo da passagem para aquilo com que não se acham familiarizados, e passarem a adoptar expressões de um carácter pessoal genuíno. E por isso, as expressões do Ser Genuíno podem ser facilmente distorcidas. Mesmo aqueles que interagem comigo, ou estão ligados à informação que eu dispenso, fazem isso. Eles distorcem-na. E nessa medida, deixam de entender aquilo que estão a experimentar, e como tal procuram enquadrar aquilo que experimentam em algum tipo de explicação com que estejam familiarizados.

Há um aumento da acção violenta. Nessa medida, isso brota do facto das pessoas não compreenderem aquilo que estão a experimentar. De certa forma, por meio da permissão para expressarem, de um modo distorcido, alguns aspectos do que se aproximará de uma expressão genuína, mas que pode não ser necessariamente aceitável em termos sociais.

TYLER: Certamente.

ELIAS: Isso provoca conflito no indivíduo, e tensão, para além de frustração. E essa tensão, em troca, em muitas situações e casos de indivíduos é passível de provocar ansiedade. E a ansiedade abre caminho, digamos assim, a comportamentos de natureza destrutiva, ou que são, aquilo que designais por inaceitáveis ou inadequados. Por as pessoas não compreenderem aquilo que estão a experimentar, e assim também não compreenderem a forma como lidar consigo e de se orientarem.

TYLER: Nesse caso dirias que muitas dessas acções ou expressões desses indivíduos, constituem mais reacções a uma energia neles próprios que eles não entendem?

ELIAS: Ah, sem sombra de dúvida!

TYLER: Está bem. Então…

ELIAS: Eu diria que isso é bastante comum.

TYLER: Certamente.

ELIAS: Por não compreenderem aquilo que estão a fazer. Mas de certas formas, eles geram a forma distorcida de uma expressão genuína, o que se torna confuso para eles, por ter que ver com a expressão de impulsos. Eles criam impulsos no sentido de se expressarem, mas aquilo que os impulsos os influenciam a expressar não é necessariamente tolerado nem aceite pelas sociedades. Por isso, a coisa provoca conflito.

TYLER: Certamente.

ELIAS: E isso provoca confusão, por o indivíduo entrar no obscurecimento relativo à duplicidade.

Lembra-te que eu disse, há um certo tempo, que uma das acções desta mudança – a qual virá a causar, está a causar, já provocou trauma – se deve ao facto de estardes a redefinir termos e a redefinir a vossa realidade.

Portanto, nas situações em que um indivíduo dá expressão a um impulso, o que é habitual, em certas dessas situações, é definir esse impulso como inadequado.

TYLER: Hmm.

ELIAS: Só que, o impulso pode ser vigoroso, porque independentemente das pessoas disporem desta informação ou não, elas estão a mudar. E consequentemente, tudo o que VÓS fazeis, ao vos tornardes mais conscientes, e tudo o que podeis notar em vós – as mudanças que se operam sobre as preferências, as mudanças que se operam sobre os impulsos, as mudanças que operam no que fazeis, e no que escolheis – elas estão igualmente a sofrer essas mudanças. Elas apenas podem necessariamente não compreender o que estão a fazer.

TYLER: Certamente.

ELIAS: E como tal, isso manifesta-se nos comportamentos que são julgados como “anormais”. E à medida que isso aumenta, os vossos médicos prestam atenção, e notam o agravamento, e começam a desenvolver mais rótulos para descrever os comportamentos inadequados e começam a procurar descobrir modificações para esses casos.

TYLER: (Riso)

ELIAS: Aquilo que não entendem, mais do que aqueles que o expressam, é que não se trata de uma questão de modificação comportamental mas de uma questão de se tornarem mais auto-conscientes, e consequentemente, de ter consciência das escolhas. Esses indivíduos não têm noção de disporem de escolha. Eles ESTÃO a reagir. E nessa medida, não sabem a que estão a reagir, e como tal também tampouco reconhecem que dispõem de alternativas.

TYLER: E eu creio... quero dizer, o grande problema prende-se... na lida com os indivíduos como este, o facto de também poderem ser levados na conta de serem perigosos, possivelmente pelos outros, mas mais provavelmente por eles próprios...

ELIAS: Exacto.

TYLER: …pelo menos em termos físicos.

ELIAS: Sim.

TYLER: E assim, creio que é aí que “metemos o pé na argola”; não sabemos como lidar com isso.

ELIAS: Estou de acordo, por a resposta automática que dais – ou reacção – à reacção deles ser no sentido de os deter, e de restabelecer o seu estado. E nessa medida, o conceito de restabelecimento é de tal modo distorcido, por implicar que estejam avariados em um aspecto qualquer, ou uma faceta débil qualquer desses indivíduos; coisa que não corresponde aos factos! E nessa medida, a modificação, ou tentativa para modificar os indivíduos também vale de pouco, por não levar em consideração aquilo que estão a expressar, e não lhe proporcionar informação nem explicação.

TYLER: Então…

ELIAS: Consequentemente, isso deixa-os simplesmente numa situação de confusão e de carência de informação, em que não têm mais consciência de si do que tinham antes.

TYLER: Então dirias que a reacção que a Ginger teve... bom, nem sequer foi uma reacção... a expressão que teve para com... ela contou-me a história de uma mulher que estava constantemente aos berros no quarto em que se encontrava, lá no hospital... ah, algumas das coisas que ela dizia... sabes... clamava em altos brados por alguém; mencionava o nome de alguém. E no princípio a Ginger não se mexia. Ela simplesmente ignorava aquilo, mas aquilo acabou por se tornar um pouco constrangedor para ela. Assim, a Ginger decidiu responder-lhe... quando ela chamava por um nome a Ginger dizia: “Essa pessoa não se encontra aqui” e isso de facto calava a pessoa durante uns tempos (ri)... até acabar por ter, digamos, um outro impulso... Dirias que... ?

ELIAS: Sim.

TYLER: …essa resposta tenha sido mais útil do que tentar calá-la?

ELIAS: Sim, estou de acordo.

TYLER: Está bem.

ELIAS: Também devo dizer que o que se pode revelar consideravelmente útil numa situação dessas é efectivamente parar e PRESENCIAR o indivíduo, por esse ser um dos factores por que esses indivíduos anseiam. Eles não têm quem os presencie. Estão a ser marginalizados. E por isso, não são reconhecidos.

TYLER: Hmm.

ELIAS: E nessa medida, essa expressão – esse desejo – na vossa realidade física, obter esse tipo de presenciamento, é MUITO premente. E a razão porque é tão premente e intencional, por ser o modo através do qual vós expressais objectivamente em termos físicos a interligação que tendes (união) uns com os outros. E quando não obtendes esse tipo de presenciamento, sentis-vos desligados.

TYLER: Eu acabei de…

ELIAS: Isso…

TYLER: Posso interromper por um segundo?

ELIAS: Podes.

TYLER: Acabou de me passar um pensamento engraçado pela mente. Um pensamento ligado a um anúncio comercial de uma companhia de telefones, hmm, em que um tipo está a falar ao telefone e o outro do outro lado lhe diz: “E agora, consegues-me escutar?” Ele anda às voltas pelo mundo fora a dizer “Consegues-me escutar agora?”

Tive essa ideia de que, digamos, antes do começo, quando estávamos a experimentar esta realidade física, se assemelharia mais ao: “E agora, consegues VER-ME?” e que isso seria óptimo...

ELIAS: Era.

TYLER: (Ri)

ELIAS: Sim!

TYLER: Então, é por isso que queremos ter quem nos presencie, por querermos ser capazes de nos ver uns aos outros.

ELIAS: É!

TYLER: Pois.

ELIAS: Por isso representar a expressão física objectiva do reconhecimento que fazeis da interligação que vos caracteriza; coisa que todos estais (interligados)! Mas como ocupais uma realidade física em que parte do modelo consiste numa expressão de separação, torna-se importante produzir uma via – ou um método, digamos – para dar expressão a essa interligação... para sentir essa interligação, e reconhece-la. E o modo através do qual podeis fazer isso, é por meio do reconhecimento. E a forma como o reconheceis é pelo presenciamento que fazeis uns dos outros.

"Eu vejo-te de uma forma genuína."

TYLER: Isso eu sou capaz de compreender.

ELIAS: “Não somente com o meu sentido da visão. Eu VEJO-TE. Reconheço a tua presença, e a ligação que tens comigo; e a que tenho contigo.”

Mas isso foi... bastante posto de parte.

TYLER: Eu ia precisamente dizer isso; ignorado.

ELIAS: Nos enormes avanços que fizestes no sentido do progresso, digamos, deixastes-vos distrair de tal modo que afastastes essa expressão básica e necessidade de ligação. Consequentemente, uma das expressões mais poderosas que podereis gerar junto de um indivíduo numa situação desse tipo – que podeis julgar expressar-se de forma inadequada, ou aborrecida, ou frustrante, ou irritante – o modo pelo meio do qual podereis ser bem sucedidos com ele, é simplesmente RECONHECENDO-O. Reconhece-o e valida-o.

Assemelha-se bastante ao que expressei noutras situações, em relação àqueles que passam pela expressão da depressão, ou que expressam ansiedade a ponto de se tornarem suicidas, ou um indivíduo que é vítima ou que perpetra alguma situação de violência. Em qualquer dessas situações, tentar entrar em desacordo com o indivíduo apenas lhe reforçará a situação.

TYLER: Certamente.

ELIAS: Por já se sentir confuso, e estar a deixar de se considerar, e estar a sentir-se à posto margem. Por isso, quando entrais em desacordo com ele isso apenas irá reforçar todas essas expressões que já está a criar. Quando uma pessoa expressa, “Não valho nada!” e vós respondeis, “Não, não é assim”, vós estais em desacordo com ela, e estais a invalidá-la.

TYLER: Hmm. Um enigma e tanto. (Ri)

ELIAS: Nessa medida, a direcção mais eficaz a ter não é necessariamente entrar em acordo, mas reconhecer muito simplesmente. Não é necessário que estejais em acordo com ela...

TYLER: Certamente.

ELIAS: ...podeis efectivamente estar em desacordo de uma forma genuína, mas não dar expressão a esse desacordo; no reconhecimento e na validação que fazeis do que ela expressa. Se a mulher clama em altos brados arrebatada por outro indivíduo, o que pode revelar-se mais eficaz do que dizer que esse indivíduo não se encontra presente, será talvez perguntar à mulher: “Onde foi a última vez que encontrou essa pessoa?”

TYLER: Certo.

ELIAS: Por isso atestar o facto de o indivíduo estar a expressar-se de uma maneira válida. Ela está a sentir falta de um outro indivíduo. Está à procura desse indivíduo. Sente-se posta à margem e confusa. E nessa medida, está a sentir-se só e procura estabelecer contacto com alguma expressão familiar que a conforte. Consequentemente, o seu reconhecimento – mas não pela via da expressão de que o outro indivíduo não se encontra presente...

TYLER: Certamente.

ELIAS: ...mas do reconhecimento do que ela está a fazer. Ela está a chamar. Muito bem: “onde foi a última vez em que se deparou com tal fulano?”... “Que pensa que essa pessoa está a fazer?”... “que forma crê que possamos utilizar para entrarmos em contacto com ela?” Não “POR si... consigo”. Nessa medida, independentemente do facto de pretenderdes entrar ou não em contacto com esse outro indivíduo – não é aí que reside a questão – a questão reside em abordar o indivíduo no momento, em meio ao que está a fazer, e testemunhar, presenciar isso, reconhecê-la, validá-la. Coisa que lhe irá modificar a energia, por ser o que ela pretende. No caso desta mulher, aquele com quem ela quer entrar em contacto pode de facto mudar e deixar de ser importante, se lhe for permitido ser testemunhado e contactada por parte de quem a abordar. Por que é aí que reside o desejo.

TYLER: E geralmente é no que reside o desejo, quando alguém se encontra nessa situação ou se sente deprimido, conforme dizes... é realmente o desejo mais profundo.

ELIAS: É!

TYLER: Certamente.

ELIAS: Nessa medida, o que ela está a expressar é uma tremenda desconsideração dela própria, por várias formas, por ter a percepção de estar a falhar na acção de estabelecer contacto, e não saber como o fazer. E consequentemente, sente-se isolada; sente-se destituída de alternativas; impotente.

Mas se forem presenciados – se estiverem a obter reconhecimento – estarão a ser reforçados quanto ao facto de estarem a ser testemunhados; não estarão sós; e talvez decorra encorajamento disso. E ele é-lhes expressado, por meio da energia, “Não , tu não estás a falhar por completo, por estares a estabelecer contacto comigo.”

TYLER: (Ligeiramente comovido) Deixa-me emocionado pensar em como mais gente deixa de fazer isso. Isso é mais ou menos ignorado ou rejeitado.

ELIAS: Eu estaria de acordo.

TYLER: (Dá uma risada)

ELIAS: É lamentável, mas conforme já tive ocasião de dizer, constitui um efeito colateral desta mudança, segundo os termos que empregais.

TYLER: Certamente.

ELIAS: E eu referi desde o começo…que iria resultar trauma.

TYLER: Certamente.

ELIAS: E nessa medida, eventualmente todos haveis de emergir (morrer). E haveis de tomar consciência.

Mas diria que para aqueles de vós que estão activamente em busca de informação e a empregá-la, e a tornar-se mais conscientes, e a expandir-se a si mesmos em meio a isso, é igualmente uma questão de reconhecerdes todos que estais interligados juntamente com esses indivíduos também. Por isso, o que fazeis propaga-se ao exterior e vai contribuir tanto para o trauma e a perpetuação dessa epidemia do trauma, digamos, como para a sua redução.

TYLER: Faz sentido. (Dá uma risada)

ELIAS: (Ri)

TYLER: Todos colhemos a parte que nos cabe. (Ri)

ELIAS: Colheis, sim.

...


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